domingo, 14 de outubro de 2012

De Onde Vem o Baião?



Depois de longo e tenebroso inverno, volto ao Musicachaça com novidades. As atividades de produção da “Tio Anastácio” cobraram um precioso tempo me afastando das postagens, mas permitiram adquirir novas experiências e sobre este assunto falarei em outro momento exclusivo.
Ainda no mês de junho especulava diferentes temáticas a abordar no blog . Tentava escrever algo diferente e depois de avaliar algumas temáticas decidi sobre o rei do Baião, tão em voga por conta de seu centenário. Estava sob o efeito dos festejos juninos já que além das festas de escola, de rua, e da pequenina que fazemos por conta do aniversário de Dona Ray (minha mãe) também passamos a contar com as erupções do Tarcísio e seu forró no Arpoador.
Somou-se a esta decisão a experiência de ter tocado o repertório do Sivuca com a querida OSPA (Orquestra de Sopros da Pró-Arte) em Belo Horizonte no dia 24 de junho, no Festival da Natura. Experiência única para jovens músicos também porque cruzamos no hotel com grandes PERSONAGENS da música brasileira. Não é todo dia que Naná Vasconcellos segura a porta do elevador para você passar com suas bagagens (e isto aconteceu comigo mesmo!), e que se cruza nos corredores com Hamilton de Holanda, Roberta Sá, Tom Zé...só não consegui ver Gilberto Gil, quem só veria tocando mesmo.
O show do Gil, com participação do também especial Marcelo Caldi, foi uma festa de São João pelo dia, pela música, e de aniversário, já que a plateia, repetidas vezes, cantou parabéns a Gil. Este show teve ainda uma participação “fantasmagórica” de Luiz Gonzaga – uma projeção em holograma que colocou Gil e Luiz Gonzaga tocando juntos. Realmente emocionante este dia em que abri uma “Chico Mineiro” para acompanhar a tímida friagem de BH.
Os 70 anos completados por Gil me iluminaram a cabeça: Luiz Gonzaga faria 100 anos dia 13 de dezembro, dia de Santa Luzia. Portanto quando Gil nascia, Luiz Gonzaga abria as portas da Música Brasileira empunhando uma sanfona com roupa de gibão. E porque não juntar os dois mais uma vez, agora no Musicachaça?
Como vou dividir esta história entre o Gil e o velho “Lua” entro no mérito de observar que não há como falar de Gil e não ser eclético. Bob Marley e Luiz Gonzaga convivendo tranquilamente em um repertório que mostra que tanto o Reggae quanto o Baião, vem debaixo do barro do chão. E estas são referências não só para mim mas para tantos outros. Faço questão de lembrar que se hoje temos algum movimento “Reggae” no Brasil, este deve muito também a Gil, mas esta é outra página.
A relação próxima entre Gil e Luiz Gonzaga é explicada por Gil originada de sua infância em Ituaçu -BA e que fez inclusive com que seu primeiro instrumento harmônico de estudo, fosse um acordeom, a exemplo de Moraes Moreira, outro desses PERSONGENS que imprime no Violão uma pegada muito própria. Luiz Gonzaga e Gil se aproximariam musicalmente ainda mais com a convivência de Gil com Dominguinhos, herdeiro musical direto de Gonzagão e grande fonte de sucessos interpretados por Gil (Eu só quero um Xodó, Tenho Sede, Abri a Porta...) que o acompanhou sobretudo no “Refazenda”.
Nisto me pego observando a frase da introdução de “Eu só quero um Xodó” que de tão genial quanto a do “Sitio do Pica Pau Amarelo” dispensam letra, mostrando a riqueza melódica e rítmica destes trechos. O mesmo acontece com “A novidade”, “Esotérico”, “Palco” e tantas outras. Gil entende a voz de maneira realmente muito musical, não apenas melodicamente, mas ritmicamente a exemplo do que faz “João Bosco” com seus falsetes afinadíssimos ou Bob Macferrin em outras cercanias. Nota-se isto nas interpretações do velho Lua em “Vem morena”, “Apologia ao Jumento” onde imita um burro dizendo: “Seu Luiz, comi do seu milho...e como, como, como...”. É bom lembrar que na letra estas palavras também fazem seu sentido como na missa do vaqueiro com “Tengo lengo, tengo lengo, tengo lengo, tem” ou Fogo Pagô onde imita o canto da pomba de mesmo nome.
Só sendo forte como um vaqueiro para abrir a Mata fechada (como a caatinga) da música popular da década de cinquenta, que tocava os cantores da Rádio Nacional em sua época de ouro, com a ascensão de nomes do choro, de gêneros parecidos com os sambas cantados por Carmem Miranda ou influenciados pelas orquestras americanas, os quais não cogitavam um artista que cantasse o sertão com ritmos sertanejos.
É bom lembrar que “Luar do Sertão” de João Pernambuco, registrada por Catulo da Paixão Cearense (que era maranhense!) é uma seresta com estética de modinha. A música rural nesta época estava presente de maneira tímida no rádio graças à música interiorana de São Paulo principalmente. Pois bem, esta mesma rádio nacional viria a aplaudir Luiz Gonzaga com “Vira e mexe” em 1941, um ano antes do nascimento de Gil.
Luiz Gonzaga, na minha singela opinião, é o principal personagem da história da música nordestina, que possui tantos outros conhecidos apenas regionalmente ou ainda pouco conhecidos. O nordeste cantado com a estética nordestina precisa ser lembrado junto com nomes como João do Vale, Jackson do Pandeiro, Capiba e Sivuca. Outros existem, como o próprio Gil, mas os figurões citados são básicos e por isso são indispensáveis.
Gil, fui conhecendo...assistindo na televisão, na escola, na “Novidade” de Herbert Vianna ou punk da periferia “...sou da freguesia do ó óooooo..”. Escutei pela primeira vez “Madalena entra em beco e sai beco” interpretada pelo Skank. Ainda hoje vou conhecendo-o como aconteceu com o “João Sabino”, “Sandra”, “Jurubeba”...
Luiz Gonzaga é herança de família. Não esqueço tantas vezes que o escutamos quando meu pai morava em Araruama-RJ, tantas vezes que ríamos com a “Apologia ao Jumento” ou o “ABC do Sertão”. Aprendi ali a respeitar Januário e o “Lua” de tabela. Passei a me orgulhar de minhas raízes nordestinas naquela época, e que floresceriam mais tarde nas idas aos forrós do “Olha a pisada”, “Paratodos”, “Forróçacana” dentre outros grupos que pude escutar, do semente da Lapa ao Malagueta de São Cristóvão. Passei inclusive a respeitar um pouquinho mais o próprio jumento que “É nosso irmão quer queira ou quer não”que como diz Luiz Gonzaga “...ajudou o homem, ajudou o Brasil a se desenvolver...”. Orgulhei-me do parentesco com o tio Alcir Campello, antigo sanfoneiro da cidade de Codó- MA . E entendi que o “Baião” do qual Gil apresentava como “an exotic style from northest” no seu ao vivo em Montreaux, nunca me soou exótico, pela intimidade que adquiri desde minha infância. Aliás, quer algo mais Pop e vanguarda que um vaqueiro de óculos “Rayban”?
Esta postagem se encaminha para o fim com a máxima experiência que tive ao cantar junto com o próprio Gil a música “De onde vem o baião”. Quando comecei a escrever este texto ainda em junho, nem sonhava com esta possibilidade. É dessas coisas que acontecem, como diz Bob Marley “há um místico natural pairando no ar”, só assim consigo justificar minha experiência: mágica, mística.
Aqui os meus agradecimentos à orquestra de sopros da Pró Arte, que me proporcionou esta experiência ao homenagear a obra de Gil no espetáculo Ituaçu. Ao Gil por sua generosidade ao mostrar de onde vem o baião. Ao velho “Lua”, por ter criado e plantado esta árvore que se chama “Baião”.
De onde vem o Baião? Vem debaixo do barro do chão!



4 comentários:

  1. Muito bom! Parabéns pelo texto e pelas experiências.

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  2. Obrigado querido. Seja sempre bem vindo a bebericar neste blog.
    Abraço forte como Cachaça!

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  3. Luiz Pagode Potter15 de outubro de 2012 09:30

    Quebrou tudo! no texto e no palco! Boa!!

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    1. Meu querido Pagode. Um comentário deste vindo de você é sempre um elogio.
      Obrigadão Fera!

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