quinta-feira, 20 de setembro de 2018

...Por ser de lá, do sertão, lá do Cerrado, Lá do Interior do Mato...


Como alguns sabem e acompanham sou músico. Sim artista e muito interessado pela cultura brasileira. Muito do que vejo de potencial de minha terra passa por um olhar cultural e não seria diferente não ter a Cachaça como uma bandeira.

É muito difícil falar da “Cachaça Brasileira”. São cinco regiões com questões próprias e algumas comuns.

Lembro da vez que Leandro Hilgert apresentou sua Harmonie Schnapps no Rio de Janeiro. Alguns afirmavam que a cachaça não teria potencial de crescimento pela estranheza do nome. Vejo poucas cachaças crescerem tanto em um mercado tão competitivo quanto esta e certamente aquilo que foi alvo de críticas foi no mínimo uma homenagem de seu produtor a sua cidade de colonização alemã (Harmonia-RS) que ainda hoje tem boa parte da população falando a língua germânica. O Brasil não conhece o Brasil mesmo.

Leandro Hilgert é desses que mais que fazer cachaça também levanta bandeiras, uma delas a da agricultura familiar.

Um fato é que a Cachaça ainda é feita em 99,99% na roça. Sim na zona Rural. Algumas comunidades, distritos que sequer estão no mapa geográfico onde o tal Google que tudo sabe, não chega ou chega muito mal, e olha que muita coisa melhorou neste sentido.

Aliás o Brasil têm uma herança rural enorme. A feijoada nasceu na roça, a caipirinha, o samba, o forró, a cana que aportou no litoral logo foi pra roça. Como diz Djavan e Herbert Vianna em Uma Brasileira “... somos do interior, do milho...” milho este que também têm sido alvo de críticas quando o assunto é fermentação de cachaça.

Neste sentido o povo Brasileiro sabe que as melhores cachaças ainda estão nos interiores por uma questão numérica. Isto sem falar dos laços afetivos. Sim costumo ganhar cachaças sem rótulo e acho que não sou o único né! Procurando saber quem são seus produtores e sua procedência fui conhecendo ainda mais este país e acho que não sou o único né!

É nestes interiores que a informalidade não existe só para a cachaça. Relações comerciais são informais, de confiança (nem tudo é assinado em cartório) são informais, estradas e rotas são informais (asfalto?), profissões e ocupações, vagas de trabalho...aliás isto não é algo que só exista no Brasil, mas nosso tamanho amplifica tudo, mesmo aquilo que é pequeno em outros países.

Certamente uma estratégia para a identidade da cachaça passa por assumir nossa identidade roçeira, ou rural, com suas ressalvas, mas com a particularidade de nossos sotaques e regionalismos “...entre o matuto, caiçara, caboclo eu prefiro é ser caipira...” Thiago Pires em “O que é a música Sertaneja?”.
Quando leio matérias sobre informalidade no setor da cachaça lembro-me da mais emblemática peleja no mundo dos alimentos que foi a do Queijo Canastra, que hoje felizmente têm sua comercialização autorizada fora do estado de Minas Gerais e que tanto acompanha refeições de brasileiros país afora. Acredito que este tenha sido um “ Case de sucesso” ou ufanísticamente falando, um “queijo de sucesso”.

Sabemos que a cachaça em seu processo de produção pode gerar vários compostos considerados tóxicos à saúde humana.  Contaminação por excesso de cobre, chumbo, álcoois superiores, excesso de acidez volátil, metanol, Carbamato de Etila e por incrível que pareça, o Álcool ainda é sabidamente o mais malévolo.

A cachaça com registro no ministério da Agricultura possui o crivo de ter passado por uma análise laboratorial do produto e ter tido a unidade produtora inspecionada por fiscais deste ministério. A informal em boa parte não passou por qualquer tipo de controle, mas isto não significa que não existam produtores informais que adotem também procedimentos de boas práticas. Aliás, se conseguem fazer algo consumível é graças a essas práticas (cortes fracionados na destilação e alimentação lenta de dornas de fermentação são práticas muito antigas por exemplo). Devemos salientar que no universo das cachaças informais estes produtores são minoria porém crescem a cada dia.

Há que se salientar que a produção de cachaça nos moldes da lei, formalizada, se mostra onerosa para a maioria dos produtores que herdando uma tradição familiar e tendo seu público alvo nas próprias localidades acaba por entender a informalidade como uma realidade. Note que a palavra não é clandestinidade, pois esta última traz em sua semântica o anonimato coisa que muitos produtores informais, não tem. Lembro que mesmo entre os especialistas é sabido de produtores sem registro no MAPA, com laudo laboratorial aprovado na maioria de seus itens.

Aos produtores que podem modernizar sua produção, pagar assessoria técnica, pagar pelas análises de lote, ótimo! Estes são nosso orgulho mesmo e acompanhamos os dragões que têm enfrentado mas precisamos ter o cuidado de ao criticar a informalidade não marginalizar ainda mais aqueles que já são marginalizados.

Lembro ainda que em um momento sensível de nossas instituições públicas vemos a situação de fragilidade pela qual passam os técnicos do ministério da agricultura, que sem concursos para pessoal, precisam dividir seus recursos humanos agora com uma crescente e promissora produção de cerveja também informal e que têm achado seu espaço.

Se por um lado os atores do setor cobram do “Governo” o entendimento da importância econômica, cultural, histórica, de nossa bebida, é importante também que saibam reconhecer a importância dos informais na economia informal (às vezes chamada de “empreendedorismo”),na transmissão de valores culturais e históricos para com isso criar políticas de inclusão dos informais.

A melhor maneira de combater a informalidade é a mesma não valer a pena, é criar mecanismos para que os informais se tornem legais e não criminalizá-los ainda mais. Neste sentido fica aqui a sugestão da criação de uma política pública de equipamento dos Institutos federais e outros centros acadêmicos de ensino de química com unidades básicas de análise de cachaça (laboratórios). No mundo das parceiras público-privadas isto pode ser feito em parceria com empresas de maior porte e de alguma maneira, beneficiar os de menor porte com no mínimo uma análise laboratorial mais elaborada.

Se a cachaça possui compostos que podem ser danosos à saúde humana, a política pública que se cria passa por um viés de saúde pública já que a cachaça ainda é a bebida destilada mais consumida no país.

Como exemplo de uma ferramenta inclusiva lembro do kit de análise de Cobre e Acidez desenvolvido pela Dra Amazile Biagioni Maia. Esta ferramenta não substitui uma análise laboratorial mas considerando nossa realidade permitiu e ainda permite que produtores legalizados e informais possam em campo, ter consciência da eficiência de sua produção nos itens propostos (cobre e acidez) de uma maneira rápida e acessível. Há que se lembrar do filtro de Resina Cátion- Íon como outra ferramenta capaz de atender a uma das exigências que lembro aqui, não são inatingíveis mas se mostram difíceis sem assessoria técnica básica.

Por último saliento aos produtores de cachaça a importância da organização e cooperativismo lembrando que mais um parceiro sócio-pequeno formal a seu lado beneficia muito mais à todos do que um concorrente informal. As leveduras trabalham em conjunto!

Aos demais atores do setor que entendam sua importância ao valorizar elementos culturais do universo da cachaça que, como intangíveis, são nosso maior patrimônio.

Um abraço Forte como cachaça
Thiago Pires

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Um Alambique à Vácuo





 No último mês de julho a confraria de Cachaça do Copo Furado foi convidada a acompanhar algo inusitado: a primeira destilação em um equipamento à vácuo no Brasil de um caldo de cana fermentado nas instalações da cachaça “Engenho D’Ouro” na localidade da Penha, Paraty- RJ.

  Aproveitando a viagem a Paraty a Copo Furado visitou as dependências do alambique da Cachaça “Pedra Branca” onde Lúcio, seu produtor falou um pouquinho sobre sua estratégia de distribuição, a importância do turismo e da rastreabilidade no processo de produção da Cachaça.

Sendo assim pegue sua preferida  de Paraty, um bom tira-gosto e vamos destilar experiências!

Um Pouquinho de História


O  Alquimista, David Teniers the Younger Séc. XVII
A arte das destilações acompanha a história da química. Desde a antiguidade que 
muita gente procura recolher vapores oriundos da destilação de diferentes vinhos. Nessa busca a humanidade já fez destilações em equipamentos de barro, muito comuns no Brasil colônia, chaleiras adaptadas, panelas de cobre, retortas de vidro, equipamentos de aço inox e equipamentos híbridos com diferentes materiais em sua confecção.

A evolução da arte da separação das partes foi fazendo com que os alambiques fossem adquirindo diferentes geometrias. Se Inicialmente os alambiques tinham seu resfriamento no topo da panela a exemplo dos capelos, capitéis ou “trombas de elefante”, com o tempo foram adquirindo serpentinas, alongamento da coluna, pratos internos, deflegmadores, outros corpos e outras formas de se facilitar a operação aumentando o rendimento em graduação alcoólica, qualidade do destilado (densidade/ viscosidade) e seus atributos sensoriais.

Um testemunho da história das destilações é o uso do cobre como material catalisador de reações químicas indesejáveis ao sensorial (sulfetos). Dentre todos os metais o cobre se mantém na história sendo associado à produção de bebidas alcoólicas destiladas de maior qualidade sensorial.

Os Destiladores no Brasil

Destilação em modelo "Tromba de Elefante"

No Brasil ainda há uma diversidade considerável de tipos de alambique sendo que os mais tradicionais seriam os do tipo Charantês (Harmonie Schnnaps, Casa Bucco), “Tromba de Elefante”(Havana, Canarinha), os de coluna simples como os fabricados pela “Osório Equipamentos”( Da Torre e Segredo da São Benedito) além dos capelos com coluna alongada, pratos e serpentina (Séc. XVIII, Tabaroa). 

Os equipamentos de três estágios (tipo alegria) também tiveram seu auge de utilização (Magnífica, Cachoeira de Cachaça) mas assim como os demais têm sido substituídos por equipamentos com colunas maiores com pratos, deflegmadores e serpentina (hoje cada vez mais a cápsula condensadora). Há que se registrar os equipamentos de aço inox comuns nas cachaças industriais com suas imensas colunas e pratos de retificação.


Cada equipamento cobra um tipo de habilidade de seu operador e no final das contas o que se está em jogo é a eficiência no controle das fontes de calor (fogo direto/ caldeira) e resfriamento (capelo/deflegmador/serpentina) em detrimento do que se busca no destilado final em termos de sensorial e rendimento. 


A Pedra Branca

O alambique da Cachaça Pedra Branca possui instalações de fazer inveja em qualquer produtor de cachaça. A eficiência e a higiene podem ser conferidas em um destilado que em pouco tempo se destaca em um mercado cada vez mais concorrido. 

Em tempos de rankings, festivais e outras mostras, a Pedra Branca escolheu uma estratégia bem diferente para se estabelecer no mercado.

Veja um pouco do depoimento de Lúcio, seu produtor, ao confrade Thales Carneiro, falando sobre essa estratégia, rastreabilidade no processo de produção e turismo.


Aos que ainda não puderam conferir a qualidade da Pedra Branca fica a dica de ir bebê-la em seu alambique. A paixão pelo alambique e pela cachaça é certa!



A Engenho D' Ouro


Já se vão mais de dez anos desde a primeira vez que estive na Engenho D’ouro. Ela já foi tema de outra matéria  que pode ser conferida por aqui sobre Estética da cachaça.

Ainda na minha primeira visita, a Engenho D’ouro operava com um destilador de coluna simples (Osório Equipamentos) e foi inevitável observar a evolução dos destilados da Engenho D’Ouro a partir da mudança para um equipamento de destilação com mais recursos . Esta mudança foi sendo também sinalizada com rótulos cada vez mais bem acabados, um pouco o reflexo do conteúdo líquido.

 Seu produtor, Norival Carneiro, é grande entusiasta da Cachaça de Paraty e ávido na busca da melhoria de seu produto colecionando com isso as principais medalhas de festivais e concursos do setor.  

Em parceria com outro grande estudioso da área, o Engenheiro Ricardo Zaratinni, instalou um equipamento que têm como objetivo principal preservar compostos que surgem na fermentação mas que são perdidos durante o processo de elevação da temperatura durante a destilação comum.

 Resumidamente a ideia é preservar ao máximo características do vinho fermentado. A aposta de Zaratini e Norival é ter um destilado ainda mais rico sensorialmente.  

Nota:
A destilação à vácuo é comum fora do Brasil sendo bastante utilizada na elaboração do Gin.
O equipamento da engenho D’Ouro foi totalmente projetado por Ricardo Zaratini com o objetivo de ser o primeiro destilador à vácuo para destilar vinho de cana, ou seja, fazer a primeira cachaça em alambique à vácuo do Brasil.

Em um destilador comum o vinho fermentado tem o ponto de ebulição a partir dos 90° celcius (aproximadamente 92°) com suas variações de graduação alcoólica e pressão atmosférica.

No breve vídeo abaixo o leitor pode conferir o próprio Ricardo Zaratini explicando resumidamente a proposta. 


Os Alquimistas Estão Chegando

O que os confrades observaram (não pude acompanhar esta visita) foi uma destilação ocorrendo com 40° celcius de temperatura com a possibilidade de aumentar a pressão do vácuo e com isso destilar com uma temperatura ainda mais baixa. Ao se volatilizar do restante do líquido, o álcool (ou espírito como conhecido na antiguidade) é sugado  e recolhido por uma bomba à vácuo  de 5 HP.

Este destilado foi degustado duas vezes, uma ao ser alambicado e outra em uma reunião interna da Copo Furado. 

É importante ressaltar que qualquer destilado muda constantemente após a destilação e vai se “arrumando” quimicamente. Com o passar do tempo essas mudanças  se tornam mais sutis.

Através do depoimento de nossos confrades tudo é muito novo, portanto Zaratini e Norival vão aperfeiçoando sua intimidade com o processo com o tempo e procurando entender os prós e contra dessa novidade.

 A Importância da Inovação


 Ao experimentar uma nova forma de destilar cachaça, Zaratini e Norival colocam Paraty novamente no marco histórico da cachaça tudo sob o testemunho dos apaixonados confrades da Copo Furado.

E o sensorial? Fica o convite a visitar a Engenho Douro e conferir porque esta mesma cachaça alambicada em julho, hoje, certamente já está diferente.




Agradecimentos


Agradecimento a toda a equipe da Engenho D’ouro e do Alambique da Cachaça Pedra Branca.

A Norival Carneiro, Ricardo Zaratini, Lúcio(Pedra branca), Thales Carneiro, José Alberto Kede, Yansel Galindo, Maria João  Bastos Gaio, Gisela Magoulas, Rosane Aparecida e todos os confrades da Copo Furado que especialmente dividiram com este escriba os relatos e fotos acima.




  Fica o registro histórico e a lição para o futuro: A Cachaça é boa, é nossa. Se melhorar...melhor e nós bebemos. 

Unidos Beberemos Sozinhos Também!


sábado, 28 de abril de 2018

Dicas para Degustação


Dicas para a Degustação



O mundo da cachaça têm mudado de forma tão acelerada que muitas vezes esquecemos de abordar temáticas simples, como por exemplo dicas e observações sobre degustações.

Minhas primeiras degustações foram feitas na loja Tonel e Pinga, agora “Rei da Cachaça” do querido Tito Moraes. Além de distribuidor e conhecedor do mundo das pingas, Tito se tornou produtor da excelente Cachaça Tiziu, de Salinas.

Com as degustações da Confraria de Cachaça do Copo Furado aprendi um pouco mais de sistematização do procedimento com algumas dicas que devo colocar por aqui. Posteriormente vieram os cursos de análise sensorial com o Dr Luigi Odello e o de utilização da roda sensorial, com a Dra Aline Bortolletto.

Lembro que degustação é uma procedimento diferente da análise sensorial e vou explicar porque: a análise sensorial é um procedimento técnico que geralmente segue etapas bem definidas, tendendo a ser feito às cegas (sem identificação alguma) buscando a maior neutralidade possível. É um procedimento de avaliação e em alguns casos comparação.  

Por ser um procedimento técnico costuma ser feito com taças adequadas (copo ISO ou o próprio pra cachaça) com uma pré-produção mínima (numeração das taças ou garrafas, formulário de avaliação...) e com um condutor da degustação. 

Na análise sensorial as cachaças passam a ser chamadas simplesmente de “amostras”.

Ousaria dizer que a degustação é uma atividade social. Tem gente que vai jogar baralho, tem gente que vai à praia com os amigos, outros vão à degustação. Mesmo sendo menos criteriosa que uma análise sensorial técnica, a degustação tem elementos comuns à análise sensorial como os “tira –gostos” (prefiro os caldinhos de feijão da degustação do que as torradas da análise sensorial), a presença da água e a comparação. Vamos lá:

1 - Evite perfumes ativos para a degustação





Geralmente passamos perfume nos pulsos. Esta é a parte que será levada às narinas quando você for experimentar a cachaça. Um perfume muito ativo pode além de atrapalhar os outros, lhe atrapalhar na percepção de elementos básicos de olfato, e vai influenciar sua degustação.

2- O Preparo Físico


Se você for para uma pescaria ou uma corrida pela manhã, não vai ficar acordado até tarde na véspera achando que no dia seguinte o rendimento é igual, não é mesmo? Uma noite mal dormida ou mesmo uma misturada de bebidas da noite anterior vai influenciar certamente sua degustação. Outro elemento que se modifica com o preparo físico é o olfato. Ir para uma degustação com uma das narinas entupidas ou espirrando muito é algo ruim e que com o álcool pode piorar, já que este mexe com o sistema imunológico.

3- Beba Água


A hidratação faz parte do preparo físico portanto, entre uma dose e outra, sempre um gole de água.  No calor carioca costumo beber água com gás com um pedaço de limão ou laranja e geralmente dá super certo. Você pode degustar acompanhado de outras bebidas mas lembro que água não é cerveja nem caipirinha e que estas últimas desidratam, mas se você conhece o ritmo das bebidas e se garante, vai lá, certo de que o seu ritmo pode não ser o ritmo do coletivo e de que a degustação é um evento social.

4- Beba com os Olhos


Amostras de "brancas"   


É fundamental ler os rótulos e contra-rótulos! Algumas garrafas possuem livretinhos de apresentação com o local de procedência, graduação alcoólica, se é estandardizada, com maiores dicas do tipo de destilado, da região e histórico do produtor...enfim, é fundamental.
Uma breve observação da limpidez na garrafa já adianta muito em ver se a mesma foi bem filtrada, se está com turbidez, ou se possui partículas que somem com a movimentação.

Copos de cafezinho de plástico (aquele branquinho frisado de 50ml) geralmente não permitem maiores observações, principalmente de viscosidade. O shot (60ml) é o mais comum , mas se puder utilize um copo de parede mais alta. Até o copo de “geléia” vai oferecer mais percepção do que um copo escuro ou opaco.

5- Organize-se


Uma degustação é um ritual. Se você começar com cachaças muito amadeiradas, talvez não perceba o efeito de transformação proporcionado pela madeira do tonel na bebida. Portanto, comece com as brancas, preferencialmente de inox e vá gradualmente passando pelas mais amadeiradas.

Exemplo:
Inox, Amendoim, Jequitibá, Carvalho, Imburana, blends.

Esta ordem  é só uma sugestão pois amadeiramento é outra seara que varia de acordo com volume do recipiente, tempo, qualidade do recipiente, tipo de madeira....


Referências de amadeiramento


6- Barriga cheia até cachaça amarga


Comer faz parte da degustação mas se você estiver ligeiramente com fome, como mais para o fim da manhã, você tem como estimular mais os sentidos e com isso perceber um pouco mais de informações. Depois da " abrideira"alimenta-se! Estar alimentado faz parte do preparo físico.

7- A degustação é social então socialize


O brinde é um rito de celebração ao encontro, quem perde o brinde ou está atrasado, ou está tomando remédio ou não está na mesma sintonia do grupo.
Diferente de uma análise sensorial em uma degustação a conversa é o melhor tira-gosto. Converse!
Nestas conversas aprendemos muito também sobre as novidades, sugestões de colegas e claro, sobre conhecimentos gerais (arte, futebol, a história dos lugares e das pessoas). 
As confrarias têm muito a ensinar neste sentido. 

8- As Coisas Acabam




É triste lembrar, mas as coisas acabam. Duas a três horas de degustação em um ambiente agradável é um tempo ideal. 

Neste período procure fazer suas avaliações: qual foi a cachaça que mais impressionou? Qual se destacou na degustação? Qual decepcionou? Qual quer comprar? Qual recomenda? Qual marcou? Qual o melhor custo-benefício? Qual levaria para experimentar em uma caipirinha?

Lembrar da trajetória das cachaças degustadas também é algo que ajuda a trabalhar a memória. Alguns mesmo na degustação menos técnica gostam de fazer registros escritos, isto é bem interessante.

9- Os "Sacis" Aparecem


 Esteja atento às chaves, bolsas, cartões de visita recebidos e cartões de banco, aparelhos de celular e até mesmo cachaças que porventura tiver comprado ou ganho. Ficamos mais displicentes depois de umas e outras e é nesta hora que as coisas somem ou como diz a sabedoria popular: “os sacis aparecem”.

10- “...como se ter ido fosse necessário para voltar...”





 Sem mais delongas, voltar pra casa refletindo, conversando com o motorista ou simplesmente observando a paisagem (quantas vezes fiz isso na barca voltando da Tonel e Pinga) é um bom motivo pra deixar o carro em casa. Além de uma questão de lei, se você está mais "aberto" vai querer aproveitar a volta. E quem não gosta de voltar bem pra casa?

Um abraço forte como cachaça e boas degustações!


terça-feira, 24 de abril de 2018

Botando os pingos nos "is" ou melhor, as Pingas nos barris!

Caros leitores

Estamos desde 2010  compartilhando conteúdos referentes à música brasileira e ao universo da Cachaça.

Nestes últimos anos temos visto proliferar outros canais que também objetivam falar de nossa querida bebida, cada um a seu modo, e neste sentido nos orgulhamos de ser  um dos pioneiros a abordar a cultura brasileira a partir da música e da cachaça para os brasileiros na internet.

Os meios de comunicação têm se dinamizado de forma intensa e a Cachaça também têm mudado assim como o interesse dos seus apreciadores têm se diversificado. Ficamos felizes de fazer parte desta trajetória.

Afim de tornar nossa comunicação mais dinâmica, criamos o perfil no Facebook "Musicachaça", https://www.facebook.com/pg/musicachaca/posts/?ref=page_internal onde temos prestigiado conteúdos mais reduzidos, procurando dialogar com as tendências de comunicação. 

Outra frente de comunicação é o Instagran www.instagram.com/thiagopiresmusicachaca/ onde uma imagem vale menos que uma dose, mas vale mais que muitas palavras (pelo menos ultimamente) e neste sentido o endereço do canal leva o nome do criador (Thiago Pires) e da criatura (Musicachaça), #thiagopiresmusicachaça.

Este canal continua funcionando em seu ritmo de forno a lenha, destinado àqueles que se propõe a degustar a Cachaça e a Música lendo, escutando, quase que no ritmo da roça mas atentos a cada nota.

Ficamos muito felizes com sua visita  ao blog e pedimos que se estendam ao Facebook e ao Instagran, que comentem, divulguem e compartilhem.

Um Abraço forte como Cachaça!



Thiago Pires

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O Mistério da Fermentação


Uma característica do universo da cachaça é a diversidade. Temos visto muito se falar da diversidade da cachaça a partir das madeiras para armazenamento. Este assunto é importante mas acaba por ofuscar um outro ponto que é a diversidade de processos fermentativos na bebida, assunto geralmente mais debatido entre produtores e especialistas.

A fermentação é a etapa responsável pelo DNA da bebida. As informações referentes à matéria prima e seu habitat (canavial/campo) estarão presentes no produto final graças ao sucesso da fermentação.

É assim que o doce da cana, do mel, do melado de cana, rapadura, o erval (capim/ mato molhado), o frutado (às vezes até referência de casca de frutas como goiaba verde sugerindo uma “trava” ou “nódoa”), os legumes cozidos (milho, canjiquinha, milho verde cozido, curau de milho, às vezes mandioca e batata doce cozidas), o cheiro de fermentação (massa de pão), o ligeiro cítrico confundido com azedume (bagaço de cana) estarão presentes na bebida.

Para quem acha que isto é pouco lembro que há um repertório de sensações que misturadas podem sugerir o medicinal, o baunilha, floral e até calda de frutas. Em uma Matriz, isto mesmo na cachaça pura/ de inox, sem amadeiramento.

Há pouco tempo atrás era muito comum degustarmos cachaça com gosto de queimado denunciando a presença de oléo fúsel ou furfural na bebida. O processo de queima do canavial para facilitação do corte comprometia e acompanhava a bebida desde sua primeira etapa, corte, até sua última etapa, a degustação. Felizmente para a produção de cachaça de qualidade esse hábito caiu em desuso embora presente de forma ilegal.

Nota-se portanto que a fermentação é algo a ser mais considerado no estudo dos amantes do assunto cachaça.
Elaboração de um pé de cuba



A ideia deste texto é além de apresentar a importância da fermentação para a sensibilidade do degustador, colocar as matrizes (puras/inox) no seu devido lugar de importância onde podem sim apresentar complexidade sensorial. Uma complexidade diferente da encontrada nos amadeiramentos mas não necessariamente menor, pior, ou secundária. Na verdade, pela ordem das das etapas, a complexidade das matrizes é primária, fundamental até para a análise dos exemplares amadeirados. 

Antes falaremos um pouco de história

Foto arquivo histórico cachaça Dama da Noite


Resumidamente a fermentação é a etapa da produção  de cachaça onde as leveduras (micro-organismos) presentes na dorna de fermentação transformam o açúcar do caldo de cana em álcool e gás carbônico.

Do latim fermentare (ferver) a fermentação alcoólica acompanha a humanidade no decorrer da história. A diversidade das culturas agrícolas do globo pode ser percebida pelo produto de fermentações. A cerveja e fermentados como os de mel e uva são testemunhos disto.

O Brasil é bem novo no assunto porém em seus quinhentos anos de história foi apresentando ao mundo fermentados como os de milho (Aluá ou Chicha na américa hispânica) e Mandioca (Cauim) só para falar dos mais conhecidos.
Se por um lado fermentados como os de milho vieram a se propagar e mesmo virar destilado como o Bourbon nos EUA, outros vinhos destilados como a Tiquira (produto da fermentação da mandioca) ficaram restritos à sua área original (Maranhão).

Fermentada a partir das borras do melado (aguardente) ou diretamente do caldo de cana (Cachaça) as aguardentes de cana tem conquistado cada vez mais amantes pelo mundo e chamo atenção para um fato:
 
A cana enquanto matéria prima possui uma característica bem marcante: é extremamente doce, o que lhe confere um frescor sensorial muito diferente de outras matérias primas que ricas em amido ainda precisam passar pela transformação deste componente em glicose, caso do Agave da Tequila ou dos cereais do Uísque. Na verdade no caso do Uísque muito têm se associado o “defumado” da bebida somente aos barris de carvalho para armazenamento sem se considerar que uma das etapas da elaboração da fermentação dos cereais é a interrupção da germinação destes cereais através de fumaça método conhecido como “peat”. Aos interessados recomendo o seguinte vídeo:


Bem, mas se o blog fala de cachaça porque um vídeo sobre uísque? Como já afirmado a matéria prima da cachaça é utilizada praticamente in natura já que só sofre a extração do caldo. Não é cozida ou defumada. É crua, virgem, fresca!

Este é um ponto importantíssimo: o brasileiro de estatura mediana ( como diz Edu Lobo) em 99 por cento dos casos já bebeu um caldo de cana ou mesmo já teve a oportunidade de prová-la no próprio canavial.

Esta é uma referência sensorial crucial para análise das matrizes. Até porque na boca do povo ela é cana, caninha, pau do capuxo, suco de cana...

Na próxima postagem apresentaremos diferentes tipos de fermento. O assunto é abrangente portanto não percam o tempo da fermentação.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Silva Jardim e as Instalações da Tapinuã dos Reis

Silva Jardim na rota turística Fluminense
Este blog se propõe a promover não só a música e a cachaça de alambique. Na verdade estamos falando de cultura brasileira. Junto com a música e a cachaça acabamos promovendo as diferentes regiões de nosso imenso país.

Um tema que deve que ser mais considerado na agenda dos administradores públicos, secretários de turismo, eventos, cultura, é que  a cachaça e a música promovem o turismo.

O turismo de alambique já é praticado em diversos locais do Brasil como nas rotas mineiras (Estrada Real, Serra da Moeda, Salinas), nas Gaúchas e mesmo em locais como a chapada Diamantina na Bahia. Talvez a cidade de Paraty seja um ótimo exemplo de como o poder público pode ser um aliado em promover o turismo de alambique.

Na maioria dos casos este turismo não é sistematizado junto com o poder público, o que que poderia alavancar ainda mais o desenvolvimento humano das regiões (mais postos de trabalho, mais infra- estrutura, mais promoção...)


 Antes de falar dos equipamentos da Tapinuã entraremos na seara de apresentar a cidade de Silva Jardim.

Pedalando da BR101


No ano de 2015 tivemos a oportunidade de viajar de bicicleta de Rio Bonito a Aldeia Velha, distrito mais conhecido por seu turismo rural, suas cachoeiras, e pela cena de Forró, Reggae e Rock que tem se desenvolvido na região.  A cachaça " da viagem" foi a Tapinuã que consegui encontrar no bar do "Linguiça" que além de dono de bar é  informalmente um pouco "Centro de informações turísticas de Aldeia Velha" para quem chega no vilarejo.

E naquele bate-papo descomprometido ficamos sabendo muita coisa de Silva Jardim.  Ficamos sabendo da trilha que liga Aldeia Velha ao encontro dos Rios em São Pedro da Serra (Friburgo). Ficamos sabendo da produção de Palmito Jussara e principalmente o Pupunha, sua imensa reserva de Mata Atlântica e o trabalho de conservação da espécie Mico Leão Dourado outrora quase extinto.

É desta forma que peço a você leitor que dê um confere no vídeo institucional da prefeitura de Silva Jardim (2014) de promoção do turismo na região. Tenho certeza que  você degustará esta matéria com outros olhos.








Instalações de Equipamentos


As instalações da Tapinuã dos Reis As instalações da Tapinuâ) confirmam sua vocação de empresa familiar. Paulo da Tapinuã, engenheiro aposentado adquiriu a propriedade com um amigo e ali montou uma pousada de turismo rural. Como bom mineiro (Itajubá) cultiva os valores regionais de doces feitos com frutas da propriedade, um queijo regional e obviamente cachaça.


Projeto aproveitando o relevo do terreno 


O engenho é todo construído em gravidade. Possui um destilador de fogo direto (Sta Efigênia de coluna e deflegmador) adaptado para um fogareiro a gás. Panela de 200 lts de cobre com pré aquecedor.  

Paulo nos contou que depois que o fiscal do MAPA orientou que fechasse o espaço da destilação optou em utilizar fogo do botijão à gás que passou a compensar já que com este obteve maior controle do aquecimento da panela. Adaptações de cunho prático para preservar o corpo já que o trabalho com a lenha é bem cansativo (principalmente para a coluna).



Sua safra geralmente dura três meses , chegando a dar três alambicadas por dia e sua capacidade de produção é em torno de 10.000 litros por ano de cachaça padronizada para 40°gl. Embora pequeno o projeto é bem funcional.

A justificativa para seu rendimento também  está no fato de padronizar o brix de fermentação em 18° e controla-lo em no máximo 8° dentro da dorna. Sendo assim produz pouco mais de vinte litros por alambicada.


Matéria – Prima e Moagem 




Paulo possui canas que conseguiu com o SNA (Sociedade Nacional de Agricultura) via sindicato rural em Cordeiro na serra fluminense. Ainda não é auto - suficiente tendo que complementar sua produção com cana de produtores de Silva jardim .

Armazenamento


Cachaça Ouro premiada em Concurso antes de ter Registro no MAPA


Sua adega é simples com capacidade de armazenamento de 14.000lts no aço inox  e nas madeiras possui a presença exclusiva do carvalho (15 barris de 200tls).

Padronização do teor do Alcoólico


 Caro leitor você não imagina a dificuldade que foi chegar a um consenso em relação a este item. Segundo Paulo é impossível que uma safra sua seja absolutamente igual a outra. Exemplifica que a cachaça muda constantemente porque ele mesmo têm procurado melhorar sua produção ano a ano. Portanto ele o termo identidade ao invés de padrão. 

Uma característica chama atenção: O sítio Tapinuã possui grande oferta de água (tem uma pequena queda d’agua dentro da propriedade) e é desta que utiliza para "padronizar" seu destilado tendo a branca 43°GL e a amadeirada (envelhecida) 41°GL.


Degustação 


Branca 

Possui uma característica marcante no paladar: Na minha análise um ligeiro mineral. O doce da matéria prima está presente tanto no nariz como no paladar com uma lembrança floral que perde para um acético. Em algumas degustações mais técnicas que fiz pude perceber a referência de melado de cana de açúcar . É bem coerente do olfativo para o paladar. Visualmente não apresenta persistência de borbulhas. Acidez controlada no sensorial com baixíssima acidez pela análise química.

Ouro (carvalho)

A referência do tabaco, do defumado são bem intensas. O baunilha sugere até mesmo um chocolate ou calda de doce com canela. Bala toffe de café. Aos que gostam de amadeiramentos intensos eis uma boa opção. Acidez controlada e bem agradável. Foi a que mais bebi em nossa visita. Apesar de preferir as brancas, a umidade da chuva, o tempo mais frio foram convidativos para o carvalho.

Fermentação


Utiliza de fermento Fleischamn para iniciar o processo e posteriormente continua apenas com as leveduras predominantes do meio.

Próximo Capítulo


Acredito que já conseguiram pegar o espírito da produção da Tapinuã. Na próxima postagem falaremos bastante de fermentação para posteriormente apresentarmos nossa experiência.

Como começamos este capítulo falando de turismo de alambique seguem algumas imagens da pousada da Fazenda Tapinuã que como diz o Paulo tem a cachaça à disposição dos hóspedes. 

Quer motivo melhor para conhecer?